quarta-feira, 6 de abril de 2011

No Surprises

Primeiramente, peço desculpas aos leitores do Baú e, principalmente, às minhas queridas amigas Hannah e Emily pela ausência inexplicada. Desde o início do mês passado estive muito ocupada e espero que, por favor, compreendam.

Agora, vou compartilhar com vocês algo que presenciei e me entristeceu muito. Há alguns dias na rodoviária, enquanto comia, um menino de, aparentemente, seis ou sete anos passou por mim pedindo dinheiro. Era moreno, seus olhos castanhos tinham uma expressão singular. Não era raiva nem tristeza, mas uma certa inquietude. Olhava como qualquer criança acostumada com a vida que tem, seja ela boa ou não. Estava bastante sujo, suas roupas estavam rasgadas e realmente parecia sentir fome naquele momento. Infelizmente, não tinha dinheiro suficiente para dar-lhe comida, mas senti alívio ao ver um jovem rapaz fazendo isso. Convidou a criança para juntar-se a ele e conversaram animadamente. Vê-lo comer afoitamente e com olhos gratos me fez sentir culpa por minha vida. E, então, um senhor disse ao jovem rapaz: “O que você fez é muito errado. Este pivete só vem aqui perturbar e roubar e você dá comida a ele. Tem mais é que deixar com fome mesmo. Agora ele vai voltar e continuar enchendo o saco.”

Isso respondeu à pergunta que sempre me faço: por que o mundo tem de ser assim? É tão simples... Não conseguimos nos por no lugar dos outros. Mesmo quando o outro é uma criança suja e faminta, como se a ‘perturbação’ que ela causa lhe tirasse o fundamental direito de comer. Esse tipo de gesto, geralmente, é visto como uma espécie de incentivo a continuar ‘perturbando’. Mas será que ele já refletiu em algum momento sobre o que leva uma criança tão nova a passar seus dias pelas ruas? Não acho que ele tenha escolhido essa vida. Por mais que se diga: ‘Ah, ele usa o dinheiro que dão pra se drogar... ’, não o torna menos digno de seus direitos mais essenciais e de compaixão. Enquanto isso, abro a geladeira e reclamo ao não encontrar algo mais apetitoso sem sequer lembrar dos bilhões de rostos que não têm a mesma sorte.

Vemos-nos como a obra-prima da criação divina. Somos dotados de intelecto e podemos criar. Temos cultura, tecnologia, sentimentos. Mesmo com toda essa superioridade, nos auto-destruimos. Somos incapazes de aceitar uns aos outros sem querer nada em troca. Simplesmente, não conseguimos nos livrar de nossos preconceitos. Todos nós, todos... somos tão desesperados e perdidos. Tão inadequados e solitários (ainda que sejamos tão iguais). Limitados, cheios de ódio e amargura. No entanto, somos tão frágeis. Como nossa auto-imagem tende a nos ver como fortes e auto-suficientes, só lembramos de quão vulneráveis somos quando feridos. Entenderemos as atitudes dos outros a partir do momento que começarmos a olhar nossas próprias fraquezas e inadequação.

...

Sou ingrata. Sempre fui abençoada com muito mais do que preciso. Tenho saúde e escolha, mas não é o suficiente. Preciso de mais. Não me satisfaço com todas estas boas coisas e me queixo. Há um vazio impreenchível aqui dentro e sinto-me cada vez mais seca e morta. Tudo parece preto e branco. Sem surpresas. ‘Tenha um emprego respeitável e o melhor carro que puder’, ‘case-se com alguém que acrescentará algo a você’, ‘compre uma casa enorme e leve seus filhos à igreja’, tudo parece decidido antes mesmo de eu nascer. Acho que vivo uma vida que não é minha. Meus sonhos ficaram menos importantes que ‘ter...’, ‘fazer...’ e já não sei quem sou (ou se sou, de fato). Tudo tem perdido a magia e já não há por que fazer perguntas. Não preciso entender, preciso aceitar sem hesitação. O mundo é um jogo e se as regras têm sentido é o de menos. O que importa é segui-las, mesmo que isso me torne um desperdício de carbono.

Não suporto mais ver a pessoa que gostaria de ser, os meus sonhos, cada vez mais longe. Não entendo como sentir-se pleno e realizado é menos importante que um carro, por exemplo, ou como ter poder vale mais que ter felicidade. Ou ainda como seguir acriticamente tudo que é ditado pelo senso comum vale mais que curiosidade, imaginação e esperança. Não agüento mais sobreviver. Quero uma vida para mim. Completamente errada e minha.


PS: Você já refletiu sobre a forma que imaginamos aliens? Sempre com simetria bilateral, bípedes, humanóides. Têm instinto de exploração e senso de superioridade. São, geralmente, cruéis. Ainda assim, são estranhos e inadequados. Talvez, lá no fundo, sabemos que nós somos os ETs.